terça-feira, 31 de março de 2020

D.écimo quarto dia

A primeira vez que tive um ataque de pânico eu não sabia que ele existia. Obviamente já havia lido sobre e até tinha uma amiga ou outra que sofria disto. Eu estava bem longe de casa, no alto sertão. Não sei qual foi o motivo, que chamam de gatilho, mas me lembro que quem procurei não deu tanta atenção assim como eu achava que deveria.

                                                         
A segunda vez que tive um ataque de pânico eu já sabia que ele existia mas não sabia que estava chegando novamente. Estava neste mesmo quarto que estou agora, da casa dos meus pais em Jardim Atlântico. No quarto de chão de tacos, que eu sempre achei que deveria ser meu, mas foi dado ao meu irmão assim que chegarmos a este bairro.


A terceira vez que tive um ataque de pânico eu estava na Várzea, achei que iria morrer. Depois desse dia muita coisa mudou na minha vida. Eu nem moro em Pernambuco mais. Embora escreva daqui e daqui nunca queira sair.


Na quarta vez que eu tiver um ataque de pânico espero ter um vidro de floral ao lado, ou uma bacia sanitária para vomitar, um ombro amigo, talvez, como eu tive no segundo ataque.


Fico me perguntando como nosso próprio corpo pode ser tão traiçoeiro ao ponto de nos deixar tão vulneráveis assim. Eu sempre me sinto bem depois de você ir embora. Eu sempre me sinto muito melhor quando você não vai embora. Mas me sinto péssima quando você avisa que está indo. Que tá vazando mais uma vez da minha vida.


                                                                                    Olinda, 30 de março de 2020.

Metade de 2019

O caminho
mais fácil
é seguir adiante
e esquecer.
Há também
os que não
esquecem
e seguem
aos tropeços

Ambos são fortes.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Final de 2019

Preciso

Constantemente checar
se o amor da minha vida
ainda vive, e respira
se já jantou ou manda nudes
Será que está de mau humor?

Preciso

Acreditar que o destino
nós é que o fazemos.
já estava escrito por Leminski
ou outro poeta:
Os quadros que pintamos
nada mais são que nossos desejos mais profundos
Recomendo a todos, sem paranoia, um amor
Todo mundo merece um amor destes
de eterna renovação.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Ainda pinto quadros


Eu quero dividir a cama,
—ainda—
a cozinha, a mesa posta.
te ver abrir o jornal e escutar 
—passaram-se dez anos
   hoje vamos nos casar— 

Ainda pinto quadros
para qual endereço
devo enviar?


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Esquadrinhando

"Vocês sabiam que existem mais de 4.200 Luandas no Brasil?" 

Eu disse uma vez em uma aula de Lógica Simbólica quando o professor colocou meu nome como se fosse algo exclusivo e identitário meu, como se o fosse, e o é. "Vocês sabiam que existem mais de 4.200 Luandas no Brasil?" Nesta mesma semana discutimos seriamente —ao meu ver— pela primeira vez por telefone. Acabou. Tudo estava acabado e àquela sensação arrasadora tomou conta de mim, e me vi gritando por um aparelho no meio do estacionamento do antigo prédio em que eu  estudava.

Estudei quatro anos no Centro de Filosofia da UFPE, quatro anos de sentimentos mistos de aventura. Apenas oito anos depois ele veio fazer sentido para mim, o prédio. De lá, ouvi histórias do meu pai, dizendo que sentava com os amigos no "pau do poeta" algo assim, e filosofavam sobre a vida. Lá passei pela primeira vez para um curso superior, eu iria estudar Filosofia, mas desisti e fui estudar Geografia. Também foi lá onde vomitei minhas primeiras ressacas de paixão, no ano de 2007. Igualmente onde cortei o cabelo de uma amiga pela primeira vez. Este ano eu voltei, após dez anos sem pisar no sexto andar, renovada e feliz. Lá, fiz grande amizades, escrevi alguns poemas, li livros arrasadores que quase fizeram eu me atirar do décimo terceiro andar.

Lembro do dia em que puseram tela nos janelões das varandas do edifício e eu ouvi uma piada machista de um esquerdomacho amigo meu, que sempre tentou me comer e eu nunca dei, graças a deus. Ele falou: agora sim, tá parecendo um galinheiro. Hoje em dia ele mora no Rio, cidade que ele considera fácil deitar qualquer mulher em sua cama. Estava implícito que ele se referia às mulheres, embora não tenha dito. E veja, ele era o galinha da Geografia, o galinha legal já que nunca fez galinhagem comigo e minhas amigas, mas era o galinha sim. 

Quatro mil Luandas no Brasil. Quatro anos de geografia para nunca haver pesquisado sobre nenhuma outra Luanda. Quando era adolescente fiz amizade com uma Luanda, por uma rede social que bombava na época, o fotolog. Uma vez fiquei com um menino em Garanhuns. Eu estava completamente consciente que estava bêbada. Já era de manhã. Eu havia dito pro meu pai que iria para um luau no Janga ou em Boa Viagem, não lembro, e fui parar no TIP com minha melhor amiga para um bate-volta louco em Garanhuns. 

Pois bem, já era de manhã e minha amiga estava se agarrando com algum cara e eu só pensava na hora em que o ônibus sairia de Garanhuns rumbo ao Recife. Esse cara bonito veio me beijar e eu permiti. Não lembro se queria. Por motivo de pressa e cachaça passei meu telefone. Dias depois ele ligou. Ainda não entendo, nem me recordo porque dei o número do telefone de casa. Pedi para meu pai dizer que eu não estava. Ele mandou e-mail. Não respondi. Ele escreveu um poema.

Anos depois ele casou com outra Luanda, essa que eu conheci através do fotolog quando era adolescente. Ainda sou louca para perguntar se ele findou dando o poema a ela, afinal era outra Luanda e a poesia para Luanda já existia. Nunca perguntei. Há alguns semestres eles se separaram e ele retomou à fixação sazonal de ser legal em forma de verso. 

Houve uma noite em que estava acompanhada no meu bar predileto da cidade e ele mandou uma mensagem, do nada. Não havia nenhuma outra conversa anterior, mas a mensagem chegou. 

As mensagens têm esse poder, elas chegam e você não sabe o que fazer com elas. Não fiz nada, nem sequer refleti sobre o tema. Meses depois estou aqui refletindo metade sobre. Talvez ainda não tenha digerido o suficiente. 

Recebi alguns poemas no caminho, de outro rapaz também. Foda de ter o nome Luanda é que os esquerdomachos da cidade não podem ouvir uma música com seu nome que vêm querer fazer poesia ou graça com isso. E eu não estou aberta para nada disso. Não estou. 

Não me importa se você vai me mandar uma mensagem às 6am dizendo que como Alceu Valença você ao acordar pensa "Luanda, Luanda, onde estáis?". Ou como o outro que me beijou uma vez e tirou um poema da manga. Ou, ainda, como um ex, que ganhou um concurso de poesia com um poema dedicado a mim. Vocês me agoniam, fazem com que eu me sinta mal. Eu só quero sair e beber com minhas amigas em paz, e pensar, e lembrar, e chorar, e falar dele. Ouvir argumentos contrários só para ter mais certeza ainda deste meu sentimento. O homem que eu gosto não gosta de mim. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Fantasia

queria estar sentada
tomando cachaça
à beira-mar
mas estou aqui sentada
nesse sofá verde-
musgo, lembrando
de uma cerveja
que um dia tomamos.
Eu estou sentada
nesse sofá
planejando aulas
evitando outro homem
dos poucos muitos
que venho evitado.
Este,
eu não quero encontrar.
Fantasia.
Ausência empurrada.
Anestesiada
como poeira fina
esbranquiçada de
Jardim Atlântico.
Se eu realmente estivesse
sentada, na beira da praia
estaria era dentro d'água
cantando Clara Nunes
com um sorriso nos lábios
e, talvez eu lembrasse
que queria estar contigo ali,
ou simplesmente eu findasse
entregando meu destino
à corrente daquela praia
de água quente no pontal
do nordeste, de Pernambuco.