terça-feira, 13 de setembro de 2016



É tanta coisa a ser dita
sobre o encontro adiado
dos palavrões presos,
da leitura errada,
do vício de querer virar o jogo
como se a vida inteira fosse
a conjugação de jogar.
Você esquece que não sou pedra
e que tenho praticado
sempre arriscar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Bater é afeto, xingar é amor.




Você é gentil, obrigada por me ignorar. Prefiro interpretar esses sinais como gentileza. Afinal você nos poupou de todo o drama, deixando apenas a mim decidir se haveria drama solo ou ressacas com drama. Você é gentil, mas é egoísta. 

Você é gentil, egoísta, e eu devo ser louca. Não completamente louca, mas aquele dedinho de loucura que faz toda adolescente parecer desatinada. Não sou mais adolescente, mas a medida é a mesma. Se fosse amor seria mais fácil de explicar. Tem dias que eu acho que é, tem dias que eu acho que não. Pessoas experientes, com filho, compartilham coisas no Facebook sobre o amor e o desamor, elas falam que se você está na dúvida, não deve ser amor. Eu sempre achei o contrário.

Nunca soube explicar direito porque amei fulano, aquele Fulano mega estúpido e idiota, e eu amava. Ou achava que amava. 

O bonito da vida é isso: ver a evolução do amor e ver a evolução que o amor nos traz. Não quis nunca ter aquela sorte fodida de livros e filmes que se tem um amor só pra toda vida. Já tive um, não mais que um, talvez você seja o segundo. Não sei. 

(Só de escrever isso sinto uma revolução na barriga e um arrepio no braço... procuro sempre explicações plausíveis pra tudo nessa vida, a revolução pode ser do regime de fome que ando fazendo, o arrepio pode ser porque no nosso Recife louco, hoje choveu e, está frio lá fora. Meu lado esquerdo está vibrando de ansiedade enquanto engulo com dificuldade o resto de saliva com gosto de café.)

Faz muito tempo que não escrevo e se voltei a escrever, você realmente deve significar algo. Veja só, se o amor amadureceu em mim, a escrita também, agora consigo escrever sem lágrimas, eis aqui uma nítida evolução em meio a tanto desatino. Não sei se o tempo se apresenta a mim como um aliado, realmente não sei. O fato é que ele está sempre presente, correndo e me desafiando a postergá-lo. Não sei quando vou te ver novamente e se quando a gente se vir eu devo agir como se o tempo não houvesse passado. Aliás, eu sei como vou agir. O problema é que sempre espanto os caras que gosto pelo meu modo de agir. 

Veja só, eu não tenho medo ou problemas em demonstrar como eu me sinto. O problema é que a pessoa vai se sentir como se houvesse um holofote na cara, um sol inteiro só pra si. E que não venham me dizer que é problema do meu signo, pode até ser, mas sou assim.

Isso me lembrou uma história com um ex que na época nem namorado havia chegado a ser. A gente tava de mimimi na pracinha perto de casa e o cabra vem e fala:

 – Lulu, acho melhor a gente não ficar mais.

Primeiro, que apelido é esse, Lulu? Voltei ao jardim da infância? Nunca gostei desse apelido na escola, onde os pirralhos faziam analogias ao meu nome sempre fazendo-o magicamente derivar para Lulu, Luluzinha, A-Lua-Anda, etc. Eu, perplexa, e com raiva daquela rasteira no meu território, tão perto de casa, repeli:

– Mas porque, Fulano? Eu gosto tanto de você.

E o cara escroto veio com um papo nada a ver dizendo que a gente deveria ter uma relação aberta, que eu deveria ficar com outras pessoas e que era o que ele iria fazer. O amor na modernidade tem um tempo e ritmo únicos, só sentindo pra saber. 

Como todo recifense moderno o rapaz dava uns perdidos, sumia. Eu, que sempre interpretei as coisas erradas, entendia esse sumiço como falta de coragem para terminar a nossa não-relação boazinha, e o que eu fiz? Achei que estava livre e fiquei com outras pessoas:

– Eu não sabia que a gente tava ficando ainda. Eu fiquei com outros caras.

– Como é?

– É po, tu sumiu, eu não sabia. Veja só vei, eu quero ficar só com você. Eu gosto de você.

– Mas eu achei que tu tava apaixonada, que porra é essa de outros caras?

O final da história não é de novela, obviamente. A gente se separou e cada um seguiu sua vida. 

Pois bem, se o tempo pode não ser um aliado, a má-interpretação é rainha em minha vida, então como eu poderia expressar a medida exata do meu querer? Sentimento não tem controle remoto pra dar uma pausa, respirar e controlar a temperatura. Na verdade, o preço de ser sincero é a solidão.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cevando estereótipos

 
 
 
 
Você chega cedo no estágio pra adiantar o serviço e sair mais cedo pra aula das 14h na universidade e o monitor não pega.

Um adendo:Você mexe nos fios, esperneia, quase chora, quando finalmente cede para si e fala pra secretária: liga pra Informática por favor e chama um técnico que eu acho que quebrei o monitor.
 
Chega o rapaz da Informática, visivelmente mais jovem que você, com cara de sono:
 
- Bom dia, o que foi que houve?
 
- Moço, acho que quebrei aqui, não tá ligando o monitor.
 
O rapaz fica olhando para minha bancada por exatos 10s, se baixa, liga a tomada e diz:
 
- Pronto, da próxima vez só nos contate após ligar o interruptor da extensão.
 
 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Paixão e superstição




Te acho tão bonito
que toda vez
quando vou te encontrar
tomo um banho de sal grosso.

Mil e um motivos






Não recebi um, 
dois, ou três.

Devo ter contado 
uns cinquenta
ou mais 

de quatro putas
com certeza mais 

de 20 brigas
no mínimo umas 
78 disputas.


Minha alegria 
agora 
é adestrada
minha semana 
agora 
tem picos
Minhas lágrimas
não são 
de crocodilo


Pergunto todos 
os dias o porquê
d'eu continuar

se não sou batizada
e já rezei
pra Deus
e minha Orixá

Fico tentando achar
uma lógica ~matemática
para prosseguir
sem apelar
pro quesito da sorte

não entendo
como por tão pouco
continuo aqui
me fudendo.

Verdades,
só me contas
as que não quero

outras mil eu descubro
e não nego 

(amor,
tempo livre
ou burrice?)

Eparrei Oyá
a reza se repete:
se for meu, que continue. (e se não for,leve pra bem longe e que seja feliz).










segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cortázar





El Futuro

Y sé muy bien que no estarás.
No estarás en la calle,
en el murmullo que brota de noche
de los postes de alumbrado,
ni en el gesto de elegir el menú,
ni en la sonrisa que alivia
los completos de los subtes,
ni en los libros prestados
ni en el hasta mañana.
No estarás en mis sueños,
en el destino original
de mis palabras,
ni en una cifra telefónica estarás
o en el color de un par de guantes
o una blusa.
Me enojaré amor mío,
sin que sea por ti,
y compraré bombones
pero no para ti,
me pararé en la esquina
a la que no vendrás,
y diré las palabras que se dicen
y comeré las cosas que se comen
y soñaré las cosas que se sueñan
y sé muy bien que no estarás,
ni aquí adentro, la cárcel
donde aún te retengo,
ni allí fuera, este río de calles
y de puentes.
No estarás para nada,
no serás ni recuerdo,
y cuando piense en ti
pensaré un pensamiento
que oscuramente
trata de acordarse de ti.

Julio Cortázar